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Você sabia que existe pesquisa de opinião séria sobre quanta gente acredita que a Terra é plana? Existe, e os números costumam surpreender nos dois sentidos.
Eles são menores do que a conversa na internet sugere. E o dado mais interessante não é quantos são, e sim qual característica prevê melhor essa crença — não é idade nem escolaridade.
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Este texto reúne o que as pesquisas mostram, com a fonte de cada número, e termina com duas ferramentas que qualquer pessoa pode usar para conferir as coisas sozinha.
Leitura de 6 minutos
📋 O que você vai encontrar aqui
- Quantos são, de verdade
- O número que quase todo mundo repete errado
- A diferença entre crer e ter dúvida
- O preditor que ninguém espera
- Por que a ideia se espalha bem em vídeo
- Uma ferramenta para conferir o céu
Principais Conclusões
- No Brasil, o Datafolha encontrou 7% — cerca de 11 milhões de pessoas
- Nos Estados Unidos, o YouGov encontrou 2% que afirmam, e 84% que dizem que é redonda
- O melhor preditor não é idade nem escolaridade: é o grau de religiosidade declarada
- Entre jovens americanos de 18 a 24 anos, só 66% dizem que sempre acreditaram que é redonda
- O número famoso de ‘um terço dos millennials’ é leitura errada dessa mesma pesquisa
Quantos são, de verdade
Comecemos pelo Brasil, onde o número é o mais alto entre os países com pesquisa publicada. O Datafolha encontrou 7% de brasileiros que discordam da afirmação de que a Terra é redonda. Em população, isso dá algo em torno de 11 milhões de pessoas.
Nos Estados Unidos, o YouGov encontrou um retrato diferente: 2% afirmam com convicção que a Terra é plana, e 84% dizem que é redonda.
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No Reino Unido, uma pesquisa do mesmo instituto encontrou perto de 3%.
| País | Percentual | Instituto |
|---|---|---|
| Brasil | 7% | Datafolha |
| Reino Unido | cerca de 3% | YouGov |
| Estados Unidos | 2% a 4% | YouGov |
O número que quase todo mundo repete errado
Circula muito uma manchete dizendo que um terço dos millennials acredita que a Terra é plana. Ela é falsa, e vale saber por quê.
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A pesquisa perguntava se a pessoa sempre acreditou que a Terra é redonda. Entre os jovens de 18 a 24 anos, 66% responderam que sim, sempre. Os 34% restantes se dividiam entre quem tinha dúvida, quem não sabia e uma fatia pequena que afirmava o modelo plano.
Transformar ‘não respondi sempre’ em ‘acredito que é plana’ é um salto que a pesquisa não autoriza. O número real de afirmação nessa faixa foi de 4%.
A diferença entre crer e ter dúvida
Essa distinção é a chave do assunto. O grupo que afirma o modelo plano é pequeno em todo lugar onde se mediu. O grupo que tem alguma dúvida, ou nunca parou para pensar, é muito maior.
Faz sentido. Quase ninguém verificou pessoalmente a forma do planeta. A maioria das pessoas acredita na esfera porque foi o que aprendeu, e não porque mediu.
Reconhecer isso não enfraquece a ciência. Só descreve com honestidade como o conhecimento chega até a maior parte de nós.
O preditor que ninguém espera
Aqui está o achado mais interessante das pesquisas. O fator que melhor separa quem afirma o modelo plano do resto da população não é idade, nem renda, nem escolaridade.
É religiosidade declarada. Segundo o levantamento do YouGov, 52% de quem diz que a Terra é plana se descreve como muito religioso, contra 20% da população em geral.
É um dado sobre correlação, não sobre causa, e não diz nada sobre nenhuma religião em particular. Diz apenas que a disposição a aceitar uma explicação que contraria o consenso caminha junto com uma certa relação com autoridade e texto.
Por que a ideia se espalha bem em vídeo
Uma parte do fenômeno é de mídia, não de crença. Conteúdo sobre o tema costuma ter três características que plataformas de vídeo recompensam: promete revelação, contraria o senso comum e gera comentário aceso.
Isso faz o assunto circular muito além do grupo que acredita nele. A maior parte de quem assiste está ali pela curiosidade ou pelo espanto.
É por isso que a presença do tema na internet parece muito maior do que os números das pesquisas.
Uma ferramenta para conferir o céu
É aqui que a conversa fica útil. Um app de carta celeste mostra o céu de qualquer ponto do planeta e de qualquer data, e não pede que você acredite em nada.
Compare o céu de Sydney, de Santiago e da Cidade do Cabo. Depois compare com o de uma cidade do hemisfério norte. As constelações do sul giram em torno de um mesmo ponto central, e essa observação é reprodutível.
O Stellarium Mobile faz isso na versão gratuita, e é a maneira mais rápida de trocar uma discussão por uma observação.

Uma ferramenta para conferir as rotas
A segunda verificação aberta a qualquer pessoa é a aviação. Existem voos comerciais diretos entre a América do Sul e a Oceania, com horário publicado e duração conhecida.
Um rastreador de voos mostra esses aviões no ar agora, com a rota desenhada sobre o mapa. Dá para acompanhar do começo ao fim.
O Flightradar24 faz isso na versão gratuita. É dado aberto, atualizado a cada minuto, e não depende de confiar em nenhuma instituição.
O que os números não dizem
Vale ser transparente sobre os limites. As pesquisas citadas aqui são de 2018 e 2019, e não encontrei levantamento recente com a mesma qualidade.
A proporção entre países provavelmente continua válida, mas os valores absolutos podem ter mudado nos anos seguintes.
Também não existe medição boa do grupo que interessa mais: o dos curiosos, que é maior que o dos crentes e muito menos estudado.
Uma conclusão sem moral da história
O retrato que os dados desenham é menos dramático do que a conversa pública sugere. O grupo que afirma o modelo plano é pequeno, e a maior parte da atenção ao tema vem de gente que só acha o assunto interessante.
A parte que rende, para quem está nesse segundo grupo, não é escolher um lado. É aprender a conferir: como funciona uma projeção cartográfica, por que uma rota parece torta no mapa, o que se vê no céu do outro hemisfério.
Quem sai dessa curiosidade sabendo fazer essas verificações levou algo que serve para muito mais coisa do que este assunto.
Tudo o que este texto diz sobre os aplicativos vem da descrição publicada nas lojas, que os desenvolvedores podem alterar quando quiserem, junto com os recursos, os idiomas e as compras oferecidas. Abra a ficha e confira as condições atuais antes de instalar. Não nos responsabilizamos por mudanças nos aplicativos, pelo conteúdo de terceiros nem pela sua experiência de uso.
FAQ
Quantos brasileiros acreditam que a Terra é plana?
O Datafolha encontrou 7% de brasileiros que discordam da afirmação de que a Terra é redonda, o que corresponde a cerca de 11 milhões de pessoas. É o maior percentual entre os países com pesquisa publicada.
E nos Estados Unidos?
Uma pesquisa do YouGov encontrou 2% que afirmam com convicção que a Terra é plana e 84% que dizem que é redonda. O restante se divide entre dúvida e falta de opinião formada.
É verdade que um terço dos millennials acredita nisso?
Não. Essa manchete é leitura errada da pesquisa. A pergunta era se a pessoa sempre acreditou que a Terra é redonda; 66% dos jovens de 18 a 24 anos responderam que sim. Os demais incluíam dúvida e desconhecimento, e a afirmação do modelo plano ficou em 4%.
Qual característica melhor prevê essa crença?
O grau de religiosidade declarada. Segundo o YouGov, 52% de quem diz que a Terra é plana se descreve como muito religioso, contra 20% da população em geral. É correlação, não causa, e não diz respeito a nenhuma religião específica.
Por que o tema parece tão grande na internet?
Porque conteúdo sobre o assunto tem características que plataformas de vídeo recompensam: promete revelação, contraria o senso comum e gera comentário aceso. Isso o faz circular muito além do grupo que acredita nele.
Discutir com quem acredita adianta?
Estudos de comunicação indicam que deboche reforça a posição em vez de mudá-la, e que apelo à autoridade convence pouco quem já desconfia de instituições. Entregar uma verificação que a própria pessoa possa fazer costuma render mais.